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Impressões pós-traductivas – parte I: Anna Kalewska
Aqui vem o primeiro comentário a propósito do trabalho com o livro 26 Bajek z Afryki – o poema de Anna Kalewska, Carta de Uma Mãe Solteira, acompanhado por uma foto de Ryszard Kapu¶ciñski.

 

 

Anna Kalewska

Carta de Uma Mãe Solteira

Porque nunca te tive, Anjo Negro
Da mão levantada no ar a bater com as impressões digitais no vidro
Do meu ventre
Brotando as palmeiras por cima das mãos
Mãos palmeiras
Palmeiras mãos
Impressões digitais
No écrã do computador?
Porque Vos quis ver de perto e abraçar
Na evidência transparente das seis fotografias
Do Mestre Kapu
Ausente.

Porque não vi ainda o teu sorriso
Primeiro dente canino maxilar
Segundo terceiro as gengivas a línga os dentes
Passei rente o teu pescoço agarrado pela mão alheia
Sem meter o óbolo na boca entreaberta

Tiveras amizades (amores)
Um rapaz igual a ti
Irmandade dos caçadores de gazelas
Cajado e arma na mão
Nunca vi os teus amigos
Não fui caçadora de gazelas
Não me sorries, então, duplicado em pintas e âncoras
Do teu sueterzinho azul e amarelo.
Porque não mereço.

Terás mesmo existido?

Querida Mãe, cresci, tive dois irmãos
De pais diferentes
De lábios respectivamente finos ou grossos
Cabelo sempre encrespado e tez morna
O Anjo Negro enveredou para Dakar
Tocou com a pena o vidro
Estilhaçou a vidraça
Estava livre, pobre e feliz.

Taciturna,
Tacteei dois vestidos brancos
Um azul-marinho, senti os cordões da camisa
Suor na face
Poeira dos escombros da casa
Nulidade do vidro.

Ai, tiveste irmãs também

Aonde vão, filhotas?
Queria pegar na mão que asseugura o cano
Ver o interior da palma da mão
Medir as impressões digitais
Iguais as minhas
Deixaram rastos quentes no ecrão de vidro ventre vazio
Porque trazes o chaile preto?
Cor-de-rosa fica te bem.

Não conheces o teu irmão.
Tem treze anos, muitos amigos
Olhar perspicaz, determinado, incrédulo,
Determinação
De querer levar para mim
Todos os Anjos Negros
Filhos da Mãe Solteira.

Varsóvia, 28 de Fevereiro de 2007
wtorek, 06 marca 2007, lusofonia